terça-feira, 15 de maio de 2018

Transcrição 1


Quanto eu tinha, acho que 3 anos, nós fomos da Bahia para o Mato Grosso de pau-de-arara. Você sabe o que é pau-de-arara? Um caminho assim coberto com uma lona e um monte de família ia. Eu acho que na minha família aquela época tinha oito crianças pequeninhas, a família do meu tio Carmo tinha umas 10 crianças, família do meu amigo, do amigo da família lá do Seu Joaquim tinha mais umas 10. Eu sei que era umas 30 crianças dentro de um pau-de-arara. Levou 3 dias pra chegar da Bahia até o Mato Grosso. Aí os fazendeiros de Mato Grosso tinha um plano pra arrecadar o... pra chamar o povo pra trabalhar lá no Mato Grosso, só que não dava estrutura nenhuma pro pessoal. Eles falavam que tinha casa, mas a gente chegou lá não tinha casa nenhuma pra esse monte de família. A gente morava em cobertura de lona, ficamos acho que 6 meses morando em cobertura de lona pra depois cada pai de família construir sua casa de pau a pique. Lá no Mato Grosso as casas eram tudo de pau a pique. Isso em 1965, por aí. Aí essas famílias ficavam trabalhando pra esses fazendeiros ricos... muito ricos. E trabalhava como escravos, porque a família toda chegava e tinha que sobreviver, né? Aí eles tinha sempre um comércio, nesse comércio, eles vendia mantimento pras famílias e eles trabalhavam. Só que todo fim de semana que ia lá acertar as contas, o dinheiro nunca dava pra pagar a conta. Ficava sempre devendo. E na semana seguinte ia buscar mais mantimento pra sustentar a família e ficava devendo mais, devendo mais. Então trabalhava como escravo, eu acho um tipo de escravidão, né? Aí quando a família se rebelava e queria sair, ainda era ameaçado de morte. Aconteceu com meu pai, aí meu pai pegou... tinha uma plantação lá no fundo do quintal que ele falava que podia plantar pro consumo da família. Meu pai falou assim: Não, você fica com a minha plantação, com a minha criação, porque eu vou embora. Aí nós tivemos que sair de lá, porque não ia ter futuro nenhum pra ninguém, né? Aí foi pra uma cidade próxima, onde todo mundo começou a trabalhar bem, bem jovem. O Arnaldo começou a trabalhar acho que com 14 anos, Adelino também com 13. Meu irmão Zica com 16. A gente foi morar na periferia de Rondonópolis, uma casa horrível, sem água, sem esgoto, sem luz... Aí começamos lá, né? Mas pelo menos tinha escola, a gente ia pra escola. Minha mãe conseguiu, é... mudar lá pra gente estudar (2:42)

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